Letramento financeiro na gestão em saúde: quem te ensinou a ler o caixa?
Por Loreci Freire de FreitasPublicado em 12 de outubro de 2026 · 6 min de leitura

Contratar mais uma pessoa. Comprar um equipamento. Ampliar os atendimentos. Negociar com um convênio.
Na saúde, aprendemos a decidir sobre pacientes, equipes e processos. Ao assumir a liderança, o profissional passa também a responder pelas consequências financeiras dessas decisões. Nem sempre essa responsabilidade vem acompanhada de preparação. Por isso a pergunta merece ser feita com franqueza: quem te ensinou a ler o caixa?
Em resumo
- Entre gestores de organizações de saúde sérvios, a proporção dos que relataram não ter frequentado qualquer tipo de capacitação em gestão financeira de organizações de saúde variou de 71,4% a 81,4% entre os setores (GAČIĆ et al., 2023).
- Entre 130 proprietários de práticas privadas sul-africanos, o escore de letramento financeiro geral foi de 73%, enquanto o específico para negócios foi de 51% (MILLEN; STACEY, 2022).
- Nos hospitais associados à Anahp participantes do levantamento, o prazo médio de recebimento contábil superou o de pagamento contábil em cerca de 29 dias em 2025 (ANAHP, 2026).
O que é letramento financeiro na gestão em saúde
Letramento financeiro não se resume a saber o saldo da conta: é compreender como as decisões afetam custos, resultado e caixa.
Segundo a definição apresentada pela OCDE, letramento financeiro combina consciência, conhecimentos, habilidades, atitudes e comportamentos necessários para tomar decisões financeiras sólidas e alcançar bem-estar financeiro (OECD, 2023).
Na gestão em saúde, ele aparece em perguntas concretas: o aumento dos atendimentos está melhorando o resultado? O investimento cabe no orçamento? Quando a receita será, de fato, recebida?
O que a pesquisa revela sobre o preparo de quem lidera
Segundo uma revisão sistemática que analisou 38 estudos, o conjunto das evidências sugere que o letramento financeiro de estudantes e profissionais de saúde está abaixo do desejável, embora essa competência seja de extrema importância para quem lidera (PAKOS; MPOGIATZIDIS, 2025).
Na Sérvia, gestores de organizações de saúde demonstraram conhecimento financeiro relativamente modesto, embora participem amplamente das atividades financeiras. A proporção dos que relataram não ter frequentado qualquer tipo de capacitação na área variou de 71,4% a 81,4% entre os setores. Os autores destacam o descompasso entre a função exercida e o conhecimento disponível (GAČIĆ et al., 2023).
Na África do Sul, um estudo avaliou 473 profissionais da saúde. Entre os 130 proprietários de práticas privadas, o escore de letramento financeiro geral foi de 73%, e o específico para negócios, de 51%. Nesse grupo, 42% relataram usar uma única conta para as finanças pessoais e empresariais ou ter dificuldade para separá-las. Também não foi identificada associação estatisticamente significativa entre o letramento geral e o específico para negócios (MILLEN; STACEY, 2022). Para quem administra, o resultado reforça a importância de desenvolver o conhecimento financeiro aplicado ao negócio.
O que isso significa para os negócios da saúde no Brasil
No Observatório Anahp 2026, o prazo médio de recebimento contábil dos hospitais associados participantes foi de 77,35 dias em 2025, e o prazo médio de pagamento contábil, de 48,30 dias (ANAHP, 2026). A diferença de cerca de 29 dias merece atenção no planejamento do caixa, embora não represente, sozinha, todo o ciclo financeiro da operação. Esses dados vêm de hospitais associados à Anahp; outros negócios da saúde podem ter realidade diferente.
A glosa inicial gerencial média foi de 15,93% dos valores a receber das operadoras. Já a glosa aceita contábil, que representa valores reconhecidos pelo hospital como perda, foi de 1,72% da receita bruta de convênios (ANAHP, 2026).
Como as bases de cálculo são diferentes, os dois números não permitem calcular quanto foi recuperado; reforçam a importância de acompanhar os valores glosados, os motivos das recusas e os resultados das negociações.
As rotinas de toda a organização têm consequências financeiras: os registros assistenciais participam do faturamento, o consumo de materiais e a organização das equipes influenciam os custos, e as condições negociadas afetam os prazos de recebimento e pagamento.
O papel da formação
Alguns estudos examinaram quais fatores se associam a maior preparo financeiro de quem gerencia.
No estudo de Welch (2022), com gerentes de enfermagem nos Estados Unidos, os anos de liderança não previram a competência financeira e de negócios autopercebida. A educação continuada para liderança, acompanhada de orientação estruturada para a função, esteve associada a maior competência autopercebida nesses aspectos.
Em Gana, entre 121 gestores de enfermagem, o treinamento em gestão foi o único fator, entre os examinados, com contribuição estatisticamente significativa para as habilidades de gestão financeira (PAARIMA; KWASHIE; OFEI, 2021).
Cinco perguntas sobre o preparo financeiro da sua equipe
- As lideranças distinguem receita, recebimento, lucro e caixa?
- Conseguem explicar os desvios entre orçado e realizado?
- Avaliam os custos envolvidos nas decisões de suas áreas?
- Compreendem como os prazos de recebimento e de pagamento afetam a operação?
- Conseguem transformar relatórios em perguntas e ações?
Se alguma resposta foi “não sei” ou “nem sempre”, vale identificar quais conhecimentos precisam ser desenvolvidos e como aplicá-los às decisões da rotina.
Da compreensão dos números à decisão
Um relatório ganha valor para a liderança quando a equipe compreende o que ele mostra, investiga as causas dos resultados e discute alternativas de ação.
É essa a proposta do Método SAPIENTUM, desenvolvido pela SYNERIS para lideranças da saúde e organizado em quatro etapas: Consciência, Letramento, Análise e Decisão. A formação conecta os conceitos financeiros às situações da gestão em saúde, trabalhando a compreensão dos números, a investigação das causas dos resultados e a discussão de alternativas para decisões sobre custos, orçamento, investimentos e caixa.
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Quero conhecer a formaçãoNa SYNERIS, partimos de uma convicção: sustentar o crescimento exige desenvolver a consciência financeira de quem lidera. SAPIENTUM. Saber além dos números.
Perguntas frequentes
Por que gestores de saúde precisam desenvolver letramento financeiro?
A experiência no cargo é suficiente?
Qual é o nível de letramento financeiro no Brasil?
Nota de transparência: os estudos citados foram realizados em populações e contextos específicos; seus resultados não representam um diagnóstico dos gestores brasileiros nem comprovam, isoladamente, efeitos causais da formação. As cinco perguntas são um ponto de reflexão, não um instrumento validado de diagnóstico.
Referências
ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE HOSPITAIS PRIVADOS (ANAHP). Observatório Anahp 2026. [S. l.]: Anahp, 2026. p. 198-201.
GAČIĆ, J.; MILOJEVIĆ, S.; KNEŽEVIĆ, S.; ADAMOVIĆ, M. Financial literacy of managers in Serbian health care organizations as a path to sustainability. Sustainability, v. 15, n. 7, 6113, 2023. DOI: 10.3390/su15076113.
MILLEN, A.; STACEY, A. Financial literacy in South African healthcare professionals: an unmet need in health professions education. South African Journal of Higher Education, v. 36, n. 3, p. 123-142, 2022. DOI: 10.20853/36-3-4647.
OECD. OECD/INFE 2023 international survey of adult financial literacy. Paris: OECD Publishing, 2023. (OECD Business and Finance Policy Papers, n. 39). DOI: 10.1787/56003a32-en.
PAARIMA, Y.; KWASHIE, A. A.; OFEI, A. M. A. Financial management skills of nurse managers in the Eastern Region of Ghana. International Journal of Africa Nursing Sciences, v. 14, 100269, 2021. DOI: 10.1016/j.ijans.2020.100269.
PAKOS, G.; MPOGIATZIDIS, P. Financial literacy among healthcare providers: a systematic review. Journal of Risk and Financial Management, v. 18, n. 1, 29, 2025. DOI: 10.3390/jrfm18010029.
WELCH, T. D. Do nurse managers feel competent in the financial and business aspects of their roles? Exploring self-perceptions. The Journal of Nursing Administration, v. 52, n. 5, p. 286-292, 2022. DOI: 10.1097/NNA.0000000000001149.
ZUMA, K.; MAHOMED, O. Financial management literacy among nurse managers in two districts of KwaZulu-Natal, South Africa: a cross-sectional study. International Journal of Africa Nursing Sciences, v. 23, 100862, 2025. DOI: 10.1016/j.ijans.2025.100862.